ARTIGOS Voltar Todos os artigos

Gênero, um termo que pode ser amplamente explorado
15/10/2026


A palavra gênero atravessa a música, o cinema, a literatura, as artes, as ciências, a biologia e a identidade sexual, oferecendo diferentes formas de classificar, reconhecer e expressar a experiência humana. Sua amplitude permite pensar não apenas em categorias que organizam o mundo, mas também em formas pelas quais nos identificamos com ele, encontramos afinidades e construímos modos de existir.

Na psicologia profunda, podemos aproximar essa reflexão da persona junguiana e da perspectiva lacaniana sobre a entrada do sujeito na linguagem. Para Jung, a persona representa a face que apresentamos ao mundo, uma forma de apresentação e reconhecimento social. Podemos imaginá-la como uma espécie de contrato tácito: ao nos comportarmos de determinadas maneiras, comunicamos quem somos e, em alguma medida, como esperamos ser reconhecidos e tratados. Já em Lacan, a entrada na linguagem implica a perda de uma suposta totalidade primordial, associada à relação com a mãe, e a inscrição do sujeito no campo do desejo e da falta. Tornamo-nos sujeitos também porque algo nos escapa, porque desejamos aquilo que não possuímos inteiramente e porque dependemos do outro para constituir sentidos sobre nós mesmos.

Essas duas perspectivas, embora distintas, permitem pensar o gênero como algo que ultrapassa a classificação externa. Ele pode ser compreendido como uma forma de expressão com a qual o sujeito estabelece afinidade, reconhece aspectos de si e encontra um lugar no mundo. Essa afinidade pode resultar de escolhas conscientes, mas também de ressonâncias menos acessíveis à consciência, nas quais desejos, identificações e valores encontram uma forma de expressão. Nesse sentido, o gênero não seria apenas escolhido: seria também engendrado, constituído na relação entre o sujeito, sua história e o universo simbólico em que está inserido.

A própria relação com o corpo pode oferecer uma analogia para ampliar essa reflexão. A anorexia, considerada aqui apenas como uma referência metafórica, remete à complexa relação com a alimentação, com aquilo que se aceita incorporar e com aquilo que se recusa a absorver. Sem reduzir um fenômeno clínico a uma imagem ou explicação simples, podemos transportar a questão para o campo simbólico: que ideias aceitamos ingerir? Que valores incorporamos? O que recusamos, expelimos ou mantemos à distância? Assim como a alimentação envolve uma relação entre o dentro e o fora, também podemos pensar nossas identidades como constituídas por processos de assimilação, recusa e transformação daquilo que nos chega do mundo.

É nesse horizonte que proponho pensar as posições políticas como formações de gênero: modos pelos quais o sujeito encontra afinidades, manifesta rejeições, se reconhece e se posiciona socialmente. No terreno eleitoral, cada possibilidade diante da urna pode ser imaginada como um gênero de posicionamento: votar em Lula, votar em Flávio Bolsonaro, votar em branco, votar nulo ou abster-se. Essas possibilidades não expressam necessariamente motivações homogêneas; pessoas que chegam à mesma decisão podem ter percorrido caminhos subjetivos inteiramente diferentes.

Para explorar essa complexidade, podemos distinguir três ordens de motivação. A primeira corresponde às possibilidades concretas de ação eleitoral: escolher um candidato, votar em branco, anular o voto ou não comparecer. A segunda diz respeito às afinidades e rejeições que podem sustentar essas escolhas: gostar de Lula, de Flávio Bolsonaro, do PT ou do PL; rejeitar um candidato ou partido; ou atribuir ao voto branco o sentido de deixar a decisão para a maioria, ao voto nulo o sentido de não apoiar ninguém e à abstenção o sentido de não se implicar naquela eleição. Esses significados são hipóteses interpretativas, não definições universais dessas opções. A terceira ordem contempla os modos de viver a experiência: deliberação, convicção, militância, dever moral e identificação coletiva.

Essas três ordens não precisam ser entendidas como etapas sucessivas, nem como categorias excludentes. Elas podem se combinar, se contradizer e se reorganizar em cada sujeito. Alguém pode apoiar um candidato por afinidade ideológica, rejeitar o adversário por incompatibilidade de valores e, simultaneamente, viver sua escolha como dever moral ou missão de convencimento. Outra pessoa pode tomar a mesma decisão sem compartilhar dessas motivações. A escolha eleitoral pode, assim, ser imaginada como uma constelação singular, na qual diferentes elementos se articulam até encontrar expressão em uma das possibilidades oferecidas pela urna.

Ampliar o conceito de gênero nessa direção é válido como exercício conceitual e metafórico, desde que reconheçamos que estamos propondo um novo uso da palavra, e não substituindo suas acepções já estabelecidas. Sua potência está em permitir que pensemos as escolhas não apenas pelo resultado visível, mas também pelas configurações de afinidades, recusas, desejos e identificações que as engendram. Os gêneros eleitorais seriam, portanto, formas de expressão e posicionamento social que emergem de uma combinação singular de motivações. A questão deixa de ser somente qual escolha o sujeito faz e passa a incluir outra, mais abrangente: como essa escolha é engendrada, que elementos a constituem e de que maneira o sujeito se reconhece e se posiciona no mundo por meio dela?

Publicado por

Faça sua aqui sua Solicitação

Solicite aqui qual o serviço que deseja contratar. 

Envie também suas dúvidas, críticas ou sugestões, teremos prazer em atendê-los.

Whatsaap Pinheiros: (11) 98492-0050

Whatsaap Osasco: (11) 98492-0031