É uma bela oportunidade podermos conversar sobre esse tema, tão sensível e difícil, que é a violência contra a mulher. Eu vou abrir a apresentação e, em seguida passo a fala para minhas colegas.
Preparei uma linha do tempo para falar sobre o tema e também vou trazer alguns conceitos e perspectivas da Psicologia Analítica Junguiana, abordagem que utilizo para embasar meus atendimentos clínicos.
É uma abordagem teórica que dialoga muito bem com as outras áreas do conhecimento, e que entende que nós estamos conectados ao passado, que herdamos a história do mundo, e carregamos dentro de nós toda essa bagagem cultural.
A linha inicia por volta de 10.000 a.C, quando começam a se consolidar formas mais permanentes de ocupação dos territórios, antes percorridos por animais e grupos humanos caçadores- coletores.
Os humanos passam a se fixar em determinados espaços, criando condições para o desenvolvimento da agricultura, da tecnologia, do crescimento populacional e de formas mais complexas de organização social...
Na imagem acima da linha do tempo a faixa cinza na linha superior: seria uma linha contínua de agressão e violência que se estende desde os primórdios da humanidade. A linha nos sugere algo... de que temos enquanto espécie uma persistente disposição para a violência.
Segundo um autor específico da base teórica citada: A nossa ânsia agressiva não se deve apenas à uma reação ao medo e à frustração, mas também à fatores inconscientes. Segundo alguns autores da abordagem analítica, a agressividade sempre precisou ser moderada, a fim de que se pudesse encontrar a sua expressão dentro dos limites socialmente aceitos.
Sobre a faixa cinza temos as linhas com escritos em vermelho, que apontam alguns documentos históricos que podemos entender como marcos dessa busca por reduzir os níveis de violência, a favor dos limites socialmente aceitos.
Em algumas variantes da perspectiva da Psicologia Analítica, se utiliza conceitos como o de consciência matriarcal e consciência patriarcal, que podem ser compreendidas como padrões ou estilos de consciência. O estilo matriarcal seria mais marcado por uma experiência mais direta da pessoa com a profundidade de suas emoções e instintos, enquanto o estilo patriarcal tenderia a organizar e normatizar essa experiência por meio da lei, da ordem e da racionalização.
É feito uma advertência sobre quando nos deixamos dominar por um único padrão de consciência. Por exemplo, se uma pessoa ficar muito orientada por um único estilo de consciência, das leis e regras, acabará que reproduzindo uma repressão contra o outro estilo: da relação mais livre e espontânea com as emoções, paixões e festividades.
É importante não associar esses dois padrões de estilos de consciência (matriarcal e patriarcal) diretamente às pessoas, muito menos aos gêneros, pois são padrões universais, podendo ambos estarem presentes tanto em homens e mulheres, quanto em sociedades, em instituições, escolas, empresas, atividades... A diferença entre eles está relacionada aos aspectos que são mais valorizados na experiência psicológica.
Apesar dos padrões serem universais, eles se realizam de forma particular. Na nossa história a posição da mulher acabou muitas vezes sendo subordinada à do homem: como esposa permanecia sob sua tutela e, como filha, passava para a tutela da família do marido após o casamento. Por exemplo na linha do tempo no período da antiguidade a lei das 12 tábuas, 450 a.C.
Podemos especular que algumas dessas leis teriam sido concebidas como uma forma de atribuir ao homem o dever de proteger sua família, mas acabaram que produzindo relações assimétricas entre os gêneros. Por exemplo na elegibilidade para propriedade e herança, concedendo mais poder à figura masculina, que a partir dessa condição passa a então angariar mais direitos para si. Por exemplo na punição por adultério, em muitas situações a posição da mulher fica defasada em relação à do homem. Textos legais e religiosos desse período registram normas que regulavam o casamento, dote, virgindade, transmissões de bens, relações familiares, contribuindo para formas de submissão da sexualidade feminina aos interesses familiares e econômicos.
Avançando na linha do tempo:
Com o advento do cristianismo as leis e costumes passam a incorporar a moral cristã, transformando a religiosidade e cultura, e atualizando as referências do papel da mulher na família e na sociedade. • Nesse contexto em 1386 ocorreu o julgamento de Marguerite de Carrouges, o filme “O último Duelo” nos permite assistir essa corajosa denuncia de estupro, de uma mulher que enfrentou um julgamento, teve sua palavra contestada e levada à solução por meio do duelo. O credo da época previa que nas disputas por duelos, deus favoreceria a justiça. Se Jean (marido de Marguerite) perdesse o duelo, Marguerite seria condenada à morte por falso testemunho. Essa passagem marca avanço, pois a mulher deixa de aparecer apenas como de vítima da violência, e passa a ocupar também o lugar de quem denuncia e busca a justiça.
Avançando na linha do tempo temos o renascimento cultural, o fim do período medieval, expansão comercial. Grandes navegações, descoberta do novo mundo, contato com sociedades indígenas e novas referências do papel e autoridade da mulher. Neste contexto temos a valorização da ciência, e da moral burguesa, que passam a influenciar fortemente os costumes das sociedades do mundo moderno.
Um marco importante da violência: • Tráfico de escravos Africanos como mão de obra para as Américas, violência sexual, exploração e separação familiar. A mulher negra foi particularmente submetida na sociedade escravista colonial. Período de forte violação da condição da mulher, seu corpo e seu trabalho eram explorados para produzir e reproduzir riqueza. Além da condição violenta das Senzalas mulheres negras chamadas de Mucamas também trabalhavam dentro das casas dos senhorios, para trabalhos domésticos e ficavam expostas à violência sexual. No Brasil tivemos importantes marcos, como a da Lei Aurea, mas em geral nossa cultura permaneceu com influências ligadas ao Coronelismo, que valoriza a figura do poder e autoridade.
Temos então as guerras mundiais seguidas por importantes marcos e convenções que virão a marcar mudanças nos direitos das mulheres. •1948 Declaração Universal dos Direitos Humanos •1969 o grupo New York Radical Women protestou contra o concurso Miss América, que marcou a Segunda Onda do Feminismo com a crítica à objetificação do corpo e padrões da aparência feminina e a forma como o concurso reduzia a mulher à aparência. As manifestantes colocaram sutiãs, cílios, cintas e outros objetos numa “lata da liberdade” e acabou se tornando um símbolo do feminismo. É isso, encerro aqui a linha do tempo, desse assunto de peso, mas a linha continua, é a nossa história, que tanto nos afeta e que devemos cuidar para prevenir a violência e celebrar os avanços, mas cuidar para não retrocedermos além do necessário.